Poemas




Há uma consciência do mistério que se abre na totalidade mundo. A árvore florida ou ferida, declinada ao chão, exala o misterioso perfume. A dor inimaginável de um inseto é um mistério silencioso. A forma humana, o contorno do rosto, a pele, o ocaso, a saudade e a solidão; seu apego ao que não comporá seu último desejo e seu desejo último, mistério. Há um espanto cotidiano, uma lúcida ignorância frente a beleza e o horror, uma distância de mim, quando penso. Uma clara desconsciência desmedida de coisas que nem sempre tem nome.




Viver almejando estrelas amplia o olhar
Fazer barquinho com o tempo e soltá-lo na correnteza
Sentar e esperar coisa alguma
Tentar não pisar nas flores até flutuar
Ficar ali
no à toa da existência




Doce noite
Solitária mansão
Tudo é grande e eu pequeno
Os corredores se alongam sem obstáculos
E a sombra caminha lentamente até o cômodo
A noite desfez as formas
A noite deságua em meu abismo o seu silêncio
Tudo é noite, até minha luz e palavra.
Doce noite
Perfeita e bondosa
Calma e lúcida
Terrível bálsamo de espera
Eloquência escondida
Doce noite
Esconderijo dos que em Deus estão
Vago espaço de ausências
Exuberância que amplia o olhar ao não-ver
Ventre de fé e vento do alto.
Esquecimento e noitícia
Castelo de quietude e fraqueza da aurora
Sacrário de corpo e sangue
Capela sem Deus e habitação plena do divino



Quatro horas.
Inverno.
O silêncio desmaterializou a pedra
tornou-a sonho.
O ponteiro não passou.
A nuvem carregada afogou o tempo.
A palmeira agitou-se na tristeza da brisa.
Ao lado, um passarinho pleno de inutilidade.
Em ciclos eternos, os abutres cruzaram o céu.
A andorinha escreveu numa nuvem o desnome
Em sua asa pousou o irrepetível
Na rua, casinha pequena e melancólica
Seu telhado era deserto antigo
Suas paredes, enrugadas
O in-vento desbotou as cores
Sua janela era triste
Uma tristeza contagiante.
Quatro horas.
Estou com tristeza de janela.




O mundo de Otávio era desfeito
Ele deitava à sombra de uma árvore imaginada
Enquanto a árvore estava lá.
Deitou a cabeça na raiz que estava no caule
E um passarinho fez ninho em seus olhos
Gorjeava uma flor amarela
A vespa pousou trazendo-lhe sete anos
Onde Otávio estava tinha um furo por onde o tempo se dissipou
O homem se evaporou com o tempo
Ficou  um menino em estado de vespa. 




Raptado pelo amanhecendo
indo à escola
Sofri de des-rumo



O canto do pássaro 
acaricia o som do rio.
Sou sôfrego de água e melodia.




O rio desaguou 
em meus ouvidos.
Meus olhos córregos.



Não é preguiça.
É vertigem de mosquito
que me abate.
É silêncio de lesma que me atravessa.





O olhar que abrevia todos os mistérios amplia-me à coisa pequena
Numa névoa em que goteja o tempo sou amanhecido em pardais.
Tudo em mim acena a um refúgio de passarinho
Que não visto entre névoa, banha-se...





Meu Não-lugar que me refugio na fé. 
Em Ti, não estou quando livre caio em abismo e abismado em Ti, sou.




Fixar-se no Vazio sem entender é abismar-se na fé...



Há apenas uma formiga ocupando a catedral


Flor em margens
fragrância púrpura
em mim libélula.



A voz da rã não diz, como poetas, apenas cancioneia o lago em acordes de dó....



O som do poente beliscou-me a alma



À beira do rio
a ponta do dedo n'água
a lua molhada dança



cidadezinha triste
a canção da chuva
baila os pássaros.



O gato
sonolento
apreende o tempo



O sol goteja o corpo
adiando a noite
enquanto a alma boceja




Por trás da vidraça
o céu cortinado
chora.





O céu negro
piscou para mim
A lua era minguante.



O vento ondeia o galho
enquanto o pássaro surfa
cortando as manhãs




A rua triste
curvas dedicadas
ao bem-te -vi






Ainda é inverno.
Saudades das tardes tristes
de amor




Sinto-me reduzido
ao quintal da minha
infância, lá tudo não era.